[REVIEW] DONKEY KONG COUNTRY TROPICAL FREEZE é uma aula de como se faz um jogo

Quando a Retro Studios [que já tinha feito seu nome no mundo dos games com os sensacionais Metroid Prime] decidiu se aventurar pelo mundo de Donkey Kong no Wii, com o excelente Returns, não foi exatamente a euforia que esperávamos, que ela mesmo criou com o lançamento do primeiro Prime no GameCube. Não que Returns seja um jogo ruim, muito pelo contrário, como eu acabei de dizer, ele não é nada menos do que excelente. Mas ele joga seguro. Foi uma estratégia de conhecimento de mercado, de reviver uma franquia que havia feito muito sucesso nas mãos da Rare, de testar os gimmicks do Wii, e então Returns precisava oferecer um material que conversasse com o jogador casual, que era o público daquele console.

Era mais do que necessário que um jogo tão bonito e tão divertido recebesse uma continuação, e foi então que a Retro decidiu mostrar toda a sua ousadia como desenvolvedora e criar um jogo que, ouso dizer, é o melhor plataforma já feito [ou no máximo, um Top 03, não dá pra ser menos do que isso]: Donkey Kong Country – Tropical Freeze.

Tropical Freeze é um jogo fácil de ser definido. Basicamente ele é uma aula completa de level design, boss battle, curva de aprendizado e storytelling.

Se você está jogando e pensou: ‘Mas como assim storytelling se o jogo mal tem cutscene e não possui uma linha de diálogo?’

Então a gente começa por aqui.

SABER DIZER TUDO SEM FALAR UMA PALAVRA

O jogo tem uma cutscene inicial que conta o início da história. Até aí é óbvio e fácil de perceber. Mas o desenvolvimento dessa trama não para por ali, quando a ilha é invadida e os Kong são obrigados a viajar por diversos mundos para toma-la de volta, a história continua em cada um desses mundos sem que uma palavra precise ser dita.

Cada um desses mundos possui uma temática específica, o que é bem comum em jogos de plataforma divididos por mundos. Mas Tropical Freeze vai além, e criou fases que se complementam, e que quando você analisa a ambientação de cada uma delas, percebe como a história do jogo é contada. Através de cada uma dessas fases, que criam uma progressão dentro daquele mundo, e vão te direcionando para o que te espera no final, na batalha derradeira contra o inimigo que roubou sua ilha.

As fases do jogo possuem elementos únicos que ajudam a contar essa história, e existe pouquíssima repetição de elementos entre uma e outra, deixando cada uma delas ainda mais única e mais importante para o efeito desejado, de desenvolver a trama do jogo.

E apesar dos principais assets de cada fase quase nunca se repetirem, eles têm uma conexão entre uma fase e outra para que a trama tenha fluidez e faça sentido. É um sistema inteligente se contar a história sem que os Kong precisem falar e dessa forma não ‘perturbar’ a identidade criada em cima desses personagens.

MÚSICA PARA NOSSOS OUVIDOS

E pra que isso funcione de forma orgânica, pra que essa história possa ser contada, uma trilha sonora que não apenas seja atrativa ou bonita, mas que funcione a favor do desenvolvimento do jogo é mais do que necessária, e esse é mais um ponto que Tropical Freeze soube como fazer escola.

A OST do jogo, criada por David Wise [que também fez a trilha de Donkey Kong Country 2, uma das melhores já criadas até hoje] nos leva para a nostalgia da trilogia do SNES, ao mesmo tempo que nos situa na versão atual e cria uma identidade única para Tropical Freeze.

Assim como os assets de cada mundo e de cada fase, as músicas também são únicas e importantes para contar a história do jogo. Elas te situam na ambientação de cada cenário [floresta, savana, gelo, fogo, etc] e são minuciosamente sincronizadas com a movimentação dos personagens no cenário, algo que foi feito de forma genial em Super Mario Galaxy, e repetido com um resultado surpreendente neste Tropical Freeze.

…E BANANA PARA OS INIMIGOS

E se você achou que cada único elemento do jogo não é de extrema importância para o storytelling do jogo, se enganou, porque os chefes também existem como uma progressão natural da história, e não servem apenas para representar seus mundos, mas para criar uma identidade dos vilões que invadiram a ilha Kong. Perceba como, pouco a pouco, os chefes do jogo estão cada vez mais ligados ao perigo final, ao grande chefão. Não diretamente, eles já estavam naqueles mundos que você explora até chegar em sua ilha, mas eles utilizam elementos ‘emprestados’ do grande vilão, e acabam se tornando uma gangue incidental de inimigos.

MAIS DO QUE UM SIMPLES JOGO…

E quando você junta todos esses elementos tão bem projetados você percebe como Tropical Freeze é uma verdadeira aula de level design. Porque criar um bom jogo no gênero plataforma não é apenas colocar um monte de plataformas e obstáculos aleatórios no cenário, Super Mario maker estava aí para mostrar como um jogo é vazio quando você não sabe como combinar os elementos certos. Tudo precisa fazer parte de um contexto maior e interagir de forma natural. Plataformas, cenários, inimigos, plano de fundo, todos esses elementos têm que estar em harmonia para que o jogo faça sentido e não pareça uma grande aleatoriedade. E é aí que Tropical Freeze se destaca e entra no que eu falei no começo do texto, no posto de, no mínimo, Top 3 Melhores Plataforma já feitos.

Existem sutilezas que colocam Tropical Freeze acima dos outros jogos do gênero. O fato como o background, com todas as suas camadas, interage com o primeiro plano, onde a ação está acontecendo. O fato de não terem caído na tentação de te mandar para outros planos do cenário com muita frequência, tornando o recurso repetitivo e obsoleto. Isso acontece pouquíssimas vezes, apenas quando é importante para o desenvolvimento daquela fase, e da história como um todo. O fato de que cada inimigo desempenha um papel naquela fase, para te atrapalhar, para te ajudar [mesmo que não seja essa sua intenção], para te mostrar o que está por vir adiante, para complementar o que acabou de acontecer, nenhum deles está posicionado de forma aleatória. Tudo isso forma um conjunto de elementos que eleva o jogo a um status acima de seus companheiros de gênero, fazendo com que ele não seja apenas mais um em meio a tantos, mas sim que seja um exemplo a ser seguido.

CURVA DE APRENDIZADO

E nada disso ia funcionar perfeitamente se o jogo não oferecesse uma curva de aprendizado minuciosamente estruturada. E adivinha se Tropical Freeze tem? Pois é, ele tem. O jogo em momento algum duvida da capacidade do jogador, nunca o trata como um amador, mas jamais deixa de oferecer uma chance para que você aprenda [mesmo que seja com seus próprios erros] e dominar o próximo desafio. Cada fase, com sua própria história, com seus elementos únicos, te prepara para a próxima, e assim sucessivamente, até que você saiba exatamente o que precisa ser feito no mundo 6 [o último do jogo], mesmo que continue falhando e morrendo sem parar, o jogo te guiou até lá, te ensinou o que precisa ser feito, te deu as ferramentas necessárias, sem precisar segurar na sua mão, sem precisar duvidar de que você é capaz de fazer aquilo por conta própria.

…UMA VERDADEIRA AULA

Donkey Kong Country – Tropical Freeze beira a perfeição em muitos aspectos, e em outros ele simplesmente atinge. Lançado em uma plataforma que fracassou, o jogo teve pouquíssimo alcance e apenas quem apoiou de verdade o Wii U foi capaz de apreciar sua genialidade. Agora, no Nintendo Switch, o jogo está finalmente tendo o reconhecimento que merece. Mesmo custando mais caro do que ele jamais custou no Wii U, ele se tornou indispensável e é recomendado para qualquer dono do Switch, para qualquer pessoa que ame um bom plataforma, para qualquer pessoa que saiba admirar um excelente jogo.

Mais do que um jogo bom, um jogo excelente, um jogo acima da média. Tropical Freeze é um jogo bem feito, bem acabado, bem cuidado, finalizado em cada mínimo detalhe, e por isso ele merece sua atenção.

Jornalista.
Hylian.
Mas talvez seja um Kokiri.
…ou um Korok.