[NINTENDINHO] As metáforas e ensinamentos de CELESTE

Antes de começarmos, vale uma observação: Celeste não é o nome da personagem principal do jogo, é o nome da montanha. Talvez você leia isso e fale ‘ahvá, agora me conta algo que eu não sei’, mas alguns podem ler e falar ‘eita que eu não sabia disso’. Então agora todo mundo sabe.

E escalar a montanha Celeste é uma das aventuras mais incríveis que os donos de Nintendo Switch podem ter esse ano, e eu falo bem sério quando digo que não estou exagerando.

Celeste é um jogo difícil.’

Sim, isso é verdade e você vai ouvir bastante disso de quem está e de quem não está jogando. Mas ele não é apenas difícil simplesmente por ser, apenas porque os desenvolvedores decidiram assim. A dificuldade do game é uma das maiores representatividades da alma do jogo, um jogo que tem muita personalidade, muita vida, e ser difícil é parte crucial disso.

Celeste leva o jogador a uma jornada pessoal, que pode ser apenas da personagem principal, ou pode servir como um espelho para a jornada de quem está segurando os joy-cons, uma vez que ele permite que você troque o nome da personagem e dessa forma consiga criar uma identificação muito mais profunda.

A trama, que a um primeiro olhar parece simples [você precisa escalar uma montanha até chegar ao topo] traz uma análise pessoal com tanta sensibilidade que vai acabar pegando o jogador de surpresa quando começar a revelar suas diversas camadas, que surgem a cada vitória rumo ao seu objetivo. Durante o processo, você encontra um inimigo bem familiar: uma espécie de versão do mal da personagem principal, que te persegue, tenta te levar pra baixo o tempo todo e te impedir de chegar ao topo.

Já está começando a entender todas as metáforas de superação pessoal com a escalar a montanha, né? Pois essa é a verdadeira base de Celeste. A montanha é a representação de qualquer objetivo que você tenha na vida. Você sabe como ela é, pode até ver como um todo de onde você está, mas chegar até lá exige que você confronte o maior desafio que você possa ter na vida: você mesmo. Inseguranças, medos, dúvidas, tudo isso é representado pela versão do mal da personagem, e como ela está constantemente entrando no seu caminho e tentando te impedir de chegar ao topo.

Mas o jogo consegue ir além disso, e desenvolve um relacionamento extremamente profundo e importante entre a personagem e seus medos, trabalhando todo o arco até que ela consiga finalmente entrar em harmonia com esse lado sombrio de si mesma, sem jamais descartar que isso sempre vai estar em você, sempre vai ser parte de você, que você não consegue simplesmente se livrar disso, e a única alternativa é aprender a não dar voz a esse lado, e ter total consciência de que ele sempre estará lá. E cabe a você aprender a controlar e entender como lidar com essa situação.

E como se isso não fosse suficiente, Celeste ainda faz questão de mostrar que não importa quão difícil seja a batalha interna para alcançar um objetivo, você ainda sofrerá com fatores externos que aparecerão em seu caminho. As pessoas que você encontra em sua jornada [seja em Celeste, seja na vida] têm suas próprias agendas, e muitas vezes, no intuito de cumpri-las, elas irão fazer com que seus próprios objetivos se sobreponham aos seus, e podem te atrapalhar no processo. Todos os personagens encontrados no jogo representam isso, de forma mais agressiva, com Mr. Oshiro, e de forma mais sutil, com o adorável Theo, que claramente não está ali para te atrapalhar, mas também não está para ajudar, e dificilmente ouvimos uma palavra de apoio vindo dele. Muito pelo contrário, ele muitas vezes tenta fazer com que você desista, sem fazer parecer que ele não acredita em você ou não torce pelo seu sucesso, mas apenas porque ele não sente/entenda que isso vale realmente a pena.

O jogo ainda ensina a trabalhar essas relações sem que você necessariamente precise odiar essas pessoas ou tirá-las de sua vida. Porque não são pessoas ruins que querem seu mal, mas como foi dito antes, são pessoas com seus próprios objetivos e que encontraram você em meio a suas próprias jornadas, e elas também têm uma montanha para escalar, e agora já não é mais sobre você, e sim sobre a jornada pessoal que cada um trilha, e quanto espaço você precisa abrir para realmente ouvir outras pessoas quando está totalmente focado em chegar ao topo.

E aí a gente volta ao ponto em que a dificuldade do jogo é justificável e tem um vínculo forte com a história. O jogo te proporciona pequenas telas que te desafiam a vencê-las. E não se preocupe em morrer, em morrer muito, porque isso faz parte do processo de aprendizado que o game aplica no jogador. Sim, aprendizado. Porque quanto mais você morre, e mais você tenta, melhor você fica, cada vez mais você entende o que aquele desafio quer de você, e quando você passa por uma tela, não é apenas porque você teve sorte e deu os pulos certos nas horas certas, mas porque você aprendeu o funcionamento daquele ambiente, entendeu o que é preciso para vencer aquele desafio, e agora é capaz de dominá-lo e enfrentar aquilo de frente, confiante do seu sucesso.

E aí, quando chega na próxima tela, é como se tudo começasse do zero, porque é outra configuração, outro nível de dificuldade, e você precisa morrer, e aprender, e entender, pra conseguir dominar tudo novamente.

Durante o jogo, a dificuldade oscila de forma assustadora. Alguns lugares parecem impossíveis de passar, enquanto outros oferecem tão pouco desafio que você chega no final da tela com uma sensação de que fez alguma coisa errada ou esqueceu algo de muita importância no caminho. Mas não há nada lá. Existem apenas alguns desafios que são fáceis de superar, enquanto outros irão tomar tudo o que você tem e você terá que dar tudo de si para que possa vencê-los. Essa oscilação muitas vezes chega a dar um conforto temporário, e parece que tudo vai ficar mais fácil, e é então que de repente os desafios ficam ainda mais difíceis e aquele ar que você conseguiu tomar, aquela respirada funda e aliviada que você deu vai servir para que você tenha fôlego para enfrentar o que vem a seguir.

Celeste pode representar apenas a Madeline [o nome padrão da personagem principal], mas se você permitir, ela é cada um de nós, e essa jornada é muito mais pessoal do que aparenta, e apenas quem viveu pode entender como isso funciona. Então se eu puder dar uma dica, ela é: Jogue Celeste. Viva essa aventura. Viva essa jornada, e não existe uma possibilidade no mundo de você não se identificar, independente se sua vida é ou não cheia de problemas. Por menor que sejam, Celeste está lá para te ensinar como passar por cima de tudo isso e chegar ao topo.

Review feito com código gentilmente cedido pela Matt Makes Games.

Jornalista.
Hylian.
Mas talvez seja um Kokiri.
…ou um Korok.